Entrevistas

 Laura Shannon


1 - Como a dança entrou na sua vida?

Ainda estava na universidade especializando-me em Estudos Interculturais, e gostava muito. Fui a Findhorn e descobri que as danças sagradas eram a parte mais interessante de multiculturalidade da comunidade. Havia uma forma de integrar as pessoas de diferentes culturas que me parecia muito significativa. Nessa época, eu tina entre 17 e 18 anos e estava envolvida com a música - eu estudava canto. Cantando diferentes culturas, descobri que eu podia expandir diversas partes da minha consciência espiritual de uma forma que nunca teria imaginado. Foi o cantar em outras línguas que parece ter produzido algum efeito em meu corpo e em meu cérebro. Mais algo aconteceu comigo e eu não pude mais cantar. Tive uma intoxicação que afetou meu pulmão e as cordas vocais e, de um dia para o outro, tive que parar de cantar. No entanto, eu precisava estar envolvida com a música , e tive que encontrar uma forma de continuar experimentando os tipos de aprendizagem que me chegavam quando cantava em outras línguas.  Lembrei, então, das danças sagradas de Findhorne pensei que poderia ficar engajada com a música e a espiritualidade e, como em um milagre, acabei indo a Findhorn, para fazer o curso de focalizadores em danças sagradas, já que naquele tempo, nos Estados Unidos, não havia essas danças, apenas as danças folclóricas pelas quais eu já me interessava. Depois disso, comecei a estudar e pesquisar as danças. Na verdade, nunca pretendi fazer das danças sagradas a minha profissão, ensinando em worshops. Não pensava que isso fosse o que eu iria fazer. Sempre pretendi outra coisa. Foi somente depois de 7 ou 8 anos ensinado nestes workshops, em horário integral, que em fim aceitei o que, obviamente, era a minha vocação e, portanto, naquele momento, seria melhor eu me entregar a ela de corpo e alma.



2 - O que é para você a Dança Sagrada? O que significa o sagrado na dança?

Entendo que toda dança é sagrada. Nunca vi nenhum tipo de dança que não seja sagrada. Penso que a necessidade de chamar aquela dança de sagrada surgiu da ideia de que a dança não era sagrada. É por assim dizer uma das viradas erradas que nossa cultura deu ao se afastar de homenagear a terra, o corpo, o feminino e o mundo natural. Todos estes aspectos em conjunto eram as coisas mais homenageadas e as mais reverenciadas nas sociedades da Europa tradicional antes da vinda das religiões monoteístas, que reviraram aquilo completamente. Para mim, as danças tradicionais, que são realmente minha especialidade, remetem-nos diretamente ao tempo, quando se honrava a Terra, o corpo, o feminino e todos os ciclos naturais. Esta era a Religião. E mesmo se o povo depois se tornou cristão ou judeu, muçulmano ou zoroastro, ou qualquer dessas outras religiões que existem na Europa Oriental ou no Oriente Próximo, todas as pessoas dançavam com a mesma compreensão de que o corpo é sagrado. Então, para mim, é importante eu estar dançando as danças antigas que remetem às primeiras origens da cultura humana, na Europa Oriental ou no Oriente Próximo. Se, naquele tempo, tinham uma função sagrada, têm a mesma função sagrada hoje. Dançar a forma e o desenho dos passos que se conectam à árvore da vida estimula um contato profundo a toda uma época da civilização humana em que todos acreditavam que o Corpo era sagrado, que a Natureza era sagrada. Todo mundo acreditava que nosso trabalho consistia em usar o ritual e a cerimônia para entrar em contato com isto, e de empregar nossa energia de vida, a alegria que experimentamos ao dançar, como nossa dádiva à Terra; nossa dádiva de volta ao mundo natural. Por isso a dança parece ter sido a primeira religião. Todos os livros que foram escritos sobre a história universal da dança afirmam que a dança foi a primeira religião, a primeira celebração, a primeira oração. Para mim, essas danças tradicionais, cujas raízes se encontram em tempos tão remotos, falam de um tempo tão antigo quando a dança e a cerimônia eram sagradas. Bem, o que eu experimento como sagrado na dança nem sempre é o que muita gente pensa. Muitos pensam que a dança sagrada é um tipo de dança litúrgica. Pensam que é preciso se vestir de branco, estar dentro de uma igreja, ser muito solenes, silenciosos, e dançar músicas clássicas. As danças ciganas, por exemplo, realmente abriram uma porta para minha compreensão sobre a sensualidade do corpo. Compreendi que a sensualidade do corpo faz parte da sacralidade do corpo. É lá que reside a força da vida e, portanto, é isso que as pessoas estavam venerando em todos aqueles primeiros milênios, enquanto dançavam. De fato temos aprendido a considerá-Ia como algo vergonhoso - talvez não seja assim no Brasil, mas certamente é na Europa. De certa forma, é vergonhoso  não é conveniente mexer os quadris dentro da igreja, por exemplo. Na realidade, do lugar de onde vêm essas danças não há separação, pois não há nenhuma conexão automática entre sexualidade e vergonha  Bem, aqui acho que preciso interromper para dizer que, como a maioria das mulheres, eu tive algumas experiências muito negativas com relação à minha sexualidade e minha vulnerabilidade. Quando eu era adolescente  fui quase estuprada. Uma das coisas que, realmente sarou as mágoas, os ferimentos daquela experiência foi ter aprendido a dançar de maneira que eu pudesse homenagear a sexualidade do meu corpo. Muitas jovens, especialmente adolescentes, crescem pensando que a sexualidade é algo que vai levá-Ias ao perigo e por isso não a sentem como uma amiga, não conseguem se sentir à vontade dentro do seu próprio corpo  Ou tornam a sexualidade uma coisa bem pública, não a sentem como algo privado nem se sentem vulneráveis  Ou elas trancam de tal forma sua sexualidade que não conseguem nem dançar. Penso que um dos maiores presentes que essas danças tradicionais podem nos trazer em termos desta compreensão da dança sexual como sagrada é o de recuperar totalmente aquele solo fértil do corpo feminino em particular. Quer dizer  é importante para os homens também. Se aprendemos a homenagear nosso corpo quando dançamos, ele se tornará mais natural para nós, à medida que crescemos, nos protegemos, se acharmos que estamos entrando numa situação perigosa. U,ma das coisas que eu faço agora é ensinar às adolescentes, em Findhorn, realmente dançar as danças ciganas e a dança do ventre. Ensino-as como mexer o corpo, como se divertir  na nossa cultura, como desfrutar de seu corpo. E que saibam que isso é para elas. São elas que decidem o que querem fazer para sentir prazer, são elas que devem resolver dizer sim ou não. Não porque outra pessoa esteja int­ressada nelas, mas para torná-Ias capazes de aprender que isto é que é sagrado. Muitas pessoas dizem  "Bem, a dança do ventre não é dança sagrada". Elas as consideram como valores opostos. No entanto  para mim, o trabalho mais emocionante tem sido o de recuperar a sacralidade naquilo que tem sido considerado como "não-sagrado" 

3 - Como foi que você se interessou pelas tradições da Europa Oriental e do Oriente Próximo? Por que você escolheu se especializar nas danças dos Bálcãs?

Fiz minha primeira viagem à Macedônia em 1987, com Andy, meu marido. Isto Foi antes de nos casarmos. Fomos lá para ver o que poderíamos encontrar nas músicas e danças tradicionais, antes das guerras dos Bálcãs, da guerra na Sérvia, Kosovo e na Croácia. Foi algo muito surpreendente! Encontramos mulheres idosas vestidas em trajes típicos e usando sapatos Feitos à mão. Havia muita música e danças que nos trouxeram grande inspiração. É um tipo de cultura muito diferente.
Poderíamos dizer que estes países são como o terceiro mundo da Europa. Muito trabalho de subsistência, muitos camponeses, muita lavoura. Eles nunca imaginavam, em toda sua vida, que viajariam nem ao menos para a próxima cidade grande, e lá muitas pessoas ainda viviam de acordo com essas antigas tradições. Havia muita superstição, rituais e cerimônias envolvendo plantas mágicas. 
Todas as plantas têm poderes medicinais e mágicos que todas as mulheres sábias conhecem. Elas as usam em certas cerimônias. Por exemplo, na Grécia e na Bulgária, o manjericão é uma planta sagrada. Eles o utilizam na igreja. O padre molha o manjericão na água benta e asperge as pessoas. E, no entanto, na Itália existe uma grande h-adição de cozinhar com manjericão. Ninguém jamais cozinharia com manjericão na Bulgária e na Grécia! Ele é considerado uma planta sagrada. Seria o mesmo que Fazer um bolo com as hóstias preparadas para a comunhão, ou seja, um sacrilégio total! Pois bem, existe lá um enorme respeito pelas plantas. como um ritual, o que era muito inusitado para mim. Na Europa ocidental  não existe isso, exceto talvez algo como a árvore de Natal ,ou o "misletoe" - uma erva-de-passarinho usada como decoração no Natal - mas não é a mesma coisa do que considerar as plantas como seres vivos. 
Eu já fiz várias viagens. Fui a cada um dos países da Europa oriental para dançar. Já voltei lá várias vezes e fui, pela primeira vez, este ano, à Armênia . Estive na Turquia, na Rússia, na Letônia, na Estônia, em todo lugar. Fui até mesmo à índia, à América do Norte e à América do Sul. Em todo lugar, encontrei esta árvore da vida.( 1) E isto me inspirou a perguntar por gue esta mesma dança é tão importante que todo o mundo a faz. O que será que ela realmente significa? E estou ainda matutando sobre isto. Continuo querendo descobrir. Mas, quando eu fiz a conexão com a árvore da vida, tudo se encaixou para mim. Porque a árvore da vida é um símbolo antiquíssimo para as deusas e para a santidade do corpo da mulher, ligada à Terra. Está ligada à Comunidade Humana, ocupando-se em todo o trabalho de plantar os alimentos, de cozinhar, cuidar da casa, limpar, fazer as roupas, bordando-as para embelezá-los, vestindo-as ... 
É como se a vida todinha de uma mulher fosse uma espécie de ritual, de celebração. Cada tarefa cotidiana, particularmente na Bulgária, é uma forma de conectar a mulher com a santidade dos ciclos da vida. Isto me despertou um grande interesse, atraiu-me muito porque percebi que era disto o que eu tinha sentido falta na minha educação. 
Como já disse, eu não aprendi que meu corpo era sagrado; não aprendi que eu poderia proteger meu corpo diante do perigo. Nem tão pouco aprendi a respeitar a comida, as atividades de fazer as compras, de cozinhar, de fazer a limpeza. Aprendi, sim, que isto tudo eram tarefas odiosas, e que as mulheres deveriam evitá-Ias. Quando cresci em Nova York, todo mundo tinha , aparelhos para fazer tudo andar mais rápido. Agora, o que eu observei é que as mulheres que tinham todos esses recursos para seus afazeres não se sentiam mais felizes por não terem que se ocupar com os trabalhos domésticos. De fato, elas pareciam estar sentindo Falta de algo e, se bem que , como já disse, eu seja uma feminista muito radical, pessoalmente descobri que, à medida que eu me conecto com a Terra, cultivando minha própria comida, lavando-a, cozinhando-a e limpando a casa com amor, alegria e gratidão por ter uma casa, por ter panelas em que cozinhar, por ter comida para comer e pessoas amadas para comer junto comigo, isto se tornou minha prática espiritual. Minhas avós não me ensinaram isso. Penso que isso tão pouco foi assim para elas. Acho que elas talvez estivessem sobrecarregadas demais, não sei. 
Mas, na Bulgária, o sentido do sagrado em cada tarefa quotidiana foi motivo de grande inspiração para mim. São países muito pobres. A Bulgária, como sabem, está em crise econômica desde o fim do período comunista. É ainda pior na Armênia: não há trabalho, não há dinheiro, não há homens. Todos os homens aptos emigraram para trabalhar fora do país. É um país dirigido por mulheres. Até parece que elas estão desempenhando isto muito bem, em termos de colocar alguma comida na mesa para as crianças! 
No entanto, há uma outra coisa que também foi motivo de grande inspiração para mim. Na Armênia, mesmo as famílias que não têm comida, que não têm dinheiro para comprar comida, economizavam o dinheiro para enviar seus filhos para aprender a música armênia e a dança armênia, porque o que me disseram, quando eu comentei sobre isso, foi : "Bem, podemos passar fome por alguns anos e não vamos morrer, mas, se algum dia nossa cultura definhar, ela não poderá nunca mais nos alimentar!" É algo espantoso! E todo mundo está tão feliz! E sabem de uma coisa? Em Yerevan, ninguém tem emprego, e então todo dia é como se fosse domingo. As pessoas caminham pelas ruas o dia inteiro, não têm dinheiro para sentar num bar, mas estão com seus Familiares e amigos, caminham, vestem-se com as melhores roupas, estão rindo e sorrindo juntos. São um espelho de dignidade, amor e divertimento E andam devagar todos os dias para algum lugar, e seus rostos estão radiantes, apesar de todas as dificuldades .. 
Quando eu vim do Oriente e fui direto para Londres, onde todos têm dinheiro de sobra, olhei para seus rostos, todos correndo pelas ruas, empurrando uns aos outros, todo mundo infeliz, todo mundo sozinho, nenhuma família junta. Aí eu pensei: "Qual é o país pobre? Qual é o país rico?" 

4 - Fale-nos sobre o livro que você pretende escrever sobre as tradições dos países da Europa oriental em relação às danças. 




O que eu estou escrevendo é simplesmente um testemunho do que venho observando nestes países: as danças, os rituais, os símbolos antigos a eles relacionados, a relevância que têm com nossa vida hoje. Porque de fato todos estes países estão desaparecendo  são como as espécies ameaçadas de extinção. Não existirão mais na próxima geração, sobretudo as danças das mulheres que ninguém acha interessante porque não apresentam grandes variações. Estas são as danças das quais,  noutra geração, ninguém vai se lembrar de como fazer. 
Tenho me esforçado para escrever sobre isto porque a meu ver é uma religião.  É uma religião que transcende todas as religiões. É totalmente tolerante. As muçulmanas, na Turquia; as cristãs, na Macedônia; as católicas, na Armênia; e as protestantes, na Hungria; todas têm a mesma religião de reverenciar o lar e suas atividades, homenagear a Terra, a família, o corpo, a comida, as vestimentas,   os símbolos. Tudo celebrando a vida. Isto transcende todas as religiões. Tem tudo a ver com a tolerância e a sobrevivência,  com a adaptação. São estas as coisas que todo mundo precisa saber. Toda menina que não aprende estas coisas irá sofrer, porque precisaremos destas metas para sobreviver no nosso mundo. 
Estou muitíssimo entusiasmada em tentar fazer um registro, em dar um nome a isto, como sendo uma atividade ritualista e religiosa importante. E também para dizer que as danças codificam a sabedoria e os ensinamentos espirituais dos nossos ancestrais. É para que as pessoas entendam que não é simplesmente uma forma de divertimento. 
Um motivo pelo qual estou sentindo dificuldade em escrever o livro é que, de fato, as danças permaneceram não­verbais, durante todos esses anos, para a sua própria proteção. A única razão pela qual sobreviveram até hoje é que ninguém percebeu que elas encerram ensinamentos revolucionários secretos. Eu não tenho certeza de que seja eu quem deva divulgá-los e talvez tornar as danças novamente vulneráveis, expondo-as a julgamentos, críticas e proibições ... Liberdade de expressão não foi o que eles tiveram na Bulgária durante o período comunista. E, portanto, eu penso que uma vez que você vivenciou ou conheceu alguém que passou por esta experiência na época em que não era seguro falar abertamente sobre estas coisas, você então realmente respeita os artifícios com que esses ensinamentos se camuflaram a fim de assegurar a própria sobrevivência. 
Por isso não tenho certeza de que eu queira ser aquela que vai abrir a caixa preta ... e desvendar o significado latente nas danças. Certamente, surgirá alguém depois para dizer que eu estou errada e, em seguida, isto vira uma pura discussão mental. 
Parece-me que, se simplesmente dançamos, isso é um recurso para cada um se conectar. Percebemos bem o que acontece quando dançamos. Você sente que seu corpo é "sua casa", você se sente conectado com outras pessoas, com a . Terra, com a família humana. É um sentimento precioso, um sentimento religioso. Pois, então, não é preciso que alguém escreva um livro para que todo mundo sinta isto. 

5 - Você poderia explicar melhor esta sua afirmação sobre o sentimento religioso que é transmitido pela dança? 

As danças não dependem de uma pessoa para explicar. É uma conexão direta que todo mundo tem. O meu website tem um artigo sobre Danças Mágicas, as danças da Árvore da Vida, como uma tradição gnóstica.onde cada pessoa tem uma conexão direta com o divino. A dança faz a mediação; mas não no sentido de alguém se tornar um sacerdote para agirem nome de outros. Todos têm uma conexão direta. Estas são crenças que a Igreja ainda hoje está tentando suprimir, e ainda não permite o reconhecimento da história verdadeira dos Catares ou dos Bogomilos (uma seita gnóstica da Bulgária de cerca do século 10), nem dos Essênios, nem dos manuscritos do Mar Morto. Isto tudo está sendo abafado. No entanto as danças codificaram aquelas crenças. São muito fortes, e poderiam ser muito perigosas para a religião tradicional, por isso talvez que o (meu) livro nunca será escrito. 



6 - Não acha importante registrar suas descobertas a respeito dos símbolos codificados nas tradições populares? 

Não sei. No entanto, as pessoas com quem eu viajo e com quem faço as pesquisas me deram a "dica". Por exemplo, na Armênia, a mulher que me ensinou as danças que eu estava pesquisando lá me implorou para torná-las públicas. Ela realmente entendeu que somente se as pessoas de fora se interessarem é que haverá esperança para aquelas coisas sobreviverem. Aconteceu o mesmo na Bulgária. Eles me animavam para fazer a pesquisa quando me diziam: "Sim, você tem razão. Sim, isto é muito interessante! 
Por favor, transmita aos outros." Então, eu sinto que tenho a permissão deles. Na Bulgária, no museu onde eu vou pesquisar, eu procuro ver, em todos os arquivos dos museus de trabalhos têxteis, todos os tecidos antigos em exposição para ver os símbolos da árvore da vida e as deusas dançantes. 
Estes símbolos estão em toda parte. Os diretores do museu, todos, me afirmam: "É mesmo verdade o que você vê, é exatamente isso. Por favor, escreva a este respeito." Recebo um grande apoio da parte deles para minhas interpretações. E, quando qualquer um deles me diz: "Eu não concordo sobre isto com você", então eu realmente questiono e presto atenção e quero saber de que modo eles vêem diferentemente de mim. Eu dei às mulheres que fazem tecelagens, alguns livros sobre Os Bordados das Deusas na Europa Oriental. Este era o título de um dos livros, e a Nina, toda animada, me disse: "Laura, no seu país você pode falar abertamente esta palavra deusa"? E eu respondi: "Sim, claro, podemos falar abertamente esta palavra deusa". E ela ficou tão animada que agora só quer tecer bordados das deusas. Ela vai ao museu comigo ou sozinha, fita todos esses bordados das deusas antigas, copia num desenho um mapa dos bordados das deusas; depois, tece-as e vai vendê-Ias junto com suas outras coisas. Nina disse: "Nem as velhas sabem, ninguém mais sabe fazer estas roupas. As deusas estão se perdendo! Cabe a nós preservá-Ias." Ela tem a minha idade e se encarregou de preservar os símbolos das deusas porque ela também acha que são relevantes para a sua vida, para se sentir uma mulher poderosa depois de ter sobrevivido à Bulgária comunista. Realmente, isto é algo muito radical para ela assumir. 


7 - O que estes símbolos todos da Europa Oriental têm a ver com o Novo Mundo das Américas e com o Brasil?

Antes de tudo, estes símbolos não são, de nenhum modo, diferentes dos símbolos que são encontrados em todas as culturas nativas: a árvore da vida, o sol, a terra, a água, o fogo, o ar, os pássaros e os animais, o corpo humano, especialmente a dança irradiando energia. Também encontramos estes símbolos na arte e nas tradições de todos os povos indígenas. E a forma com que estes símbolos sobreviveram e se codificaram nas danças e nas artes folclóricas, tais como artigos têxteis, jóias e adereços, significa que podemos apreender e experimentar algo que nos remete diretamente à civilização indígena da Europa. Como sabemos, há 10.000 anos atrás, os colonos neolíticos da Europa Oriental e do Oriente Próximo, estes primeiros homens brancos que se estabeleceram desenvolvendo a agricultura, viviam em total harmonia com os ciclos da vida e uns com os outros, da mesma forma que as culturas dos povos nativos das pessoas de cor convivem hoje em dia. Pessoalmente, a relevância particular que isto tem para nós, hoje, é porque os europeus brancos foram, em muitos casos, os agentes da destruição das culturas indígenas pelo mundo afora quer tenham tido esta intenção ou não este foi o resultado. É importante sabermos que, nas raízes da civilização européia, está contida a mesma visão universal que homenageia a Terra, que honra o outro, que honra o corpo, que presta homenagem ao Sol e à Lua, aos ciclos da vida, aos elementos, e que homenageia a árvore. A árvore, como símbolo da interconexão e da nossa aspiração espiritual. A árvore é fonte de tudo: fruta, alimento, fogo, remédio da casca. Todas as culturas prestam homenagem à árvore; portanto, não há povo na Terra para quem estes símbolos não sejam relevantes. É especialmente interessante encontrar estes símbolos no berço da civilização européia. A meu ver, é a civilização européia que agora precisa mudar sua direção e suas prioridades e se distanciar da ideia de crescimento econômico sem limites e de expansão tecnológica sem limites. Teremos que mudar as coisas para voltar a respeitar os recursos naturais, para cuidar bem deles e pensar de novo nas gerações futuras. 


Entrevista para a Roda de Luz em Belo Horizonte, abril de 2002. Transcrita e traduzido por Dorothy Pritchard - Boletim das Danças Circulares nº 13/2003.